segunda-feira, 25 de julho de 2011

Pense. Logo, exista! 1 – Um almanaque de idéias para você considerar...


Pense. Logo, exista! 1 – Um almanaque de idéias para você considerar...

A inspiração do texto veio dele e de seu Discurso sobre o Método. Que ele e Deus me perdoem...

Não existe passatempo mais barato, mais prazeroso e mais instrutivo do que andar pelas ruas, prestando atenção nas caras e no jeito das pessoas.

Como profissional de marketing tenho a distorção de imaginar o que seria necessário dizer ou exibir para vender alguma coisa para aquela gente. Para cada tipo de gente. Pois cada um deles ou delas usa o seu dinheiro para comprar algumas coisas. E decide comprar em grande parte devido às ações que nós marqueteiros ajudamos a desenvolver.
Um produto ou serviço hoje mais do que nunca só existe quando alguém o compra.

(Imagine o desafio de criar um texto que fizesse o Descartes comprar alguma coisa ?)

Imagino os caminhos – as sinapses mentais - que levam ao centro das decisões de compra daquela pessoa bem no meio de seus cérebros!O caminho está longe de ser racional e de poder ser copiado por qualquer um usando a “doutrina” certa.

Há uma infinidade de livros, trabalhos e pesquisas que estão sendo feitas, já foram feitas, ou estão sendo iniciadas agora mesmo em algum lugar da Terra.

E à falta de quem me desminta, não existe pesquisa mais importante na Terra hoje do que saber como tornar pessoas em consumidores (eleitores, fiéis, defensores).

Esta é a mais importante chave do poder. Aquela história do Santo Graal do Indiana Jones vira brincadeirinha de criança diante do poder de quem saiba agora “influenciar pessoas...”

Há trabalhos muito interessantes e que evidenciam a sua precisão quando associa as mensagens para que alguém faça ou deixe de fazer alguma coisa à hipnose.


Havia quando eu era menino uma moda de hipnotismo exibido em teatros.

Professores dos mais diversos nomes e nacionalidades se exibiam para auditórios que pagavam para vê-los fazendo coisas inexplicáveis desde que tivessem sido hipnotizadas.

Lembro de uma destas hipnoses: Um pessoa da platéia, dentre as que diziam que queriam ser hipnotizadas, era convencida de que seu corpo era rígido como um tábua.

A sua nuca ficava apoiada numa cadeira e os seus pés numa outra cadeira. Entre estas duas cadeiras havia mais umas duas ou três que após a hipnose eram retiradas pelo professor.

Quando sobravam apenas as duas últimas cadeiras – a da nuca e a dos pés – o espectador ficava lá durinho como uma prancha de madeira e dormindo. O hipnotizador ia botando pesos em cima do hipnotizado que não se mexia. E resistia como se fosse uma prancha estendida de uma cadeira à outra.

Admitindo-se que não havia uma prancha de madeira ou aço disfarçada sob as roupas do espectador “hipnotizado” quais seriam as palavras mágicas do hipnotizador ditas e ouvidas pelo espectador para que ele se acreditasse e se tornasse na prancha rígida entre as duas cadeiras?

Os exercícios a que o hipnotizador submetia o auditório ajudavam a “comprovar” seus poderes hipnóticos sem que tivesse de recorrer a assistentes disfarçados de espectadores.

Seriam aquelas mágicas aparentadas com as usadas pelos comunicadores de marketing para levar quem ou ouve ou vê a comprarem coisas?

Descartes, o autor do “penso, logo existo” que inspirou o título deste texto escreveu nos primeiro parágrafos do seu “Discurso sobre o Método” que o bem mais abundante do mundo era o “bom senso”.

E a“ explicação para esta certeza é que não havia (nem há) pessoa que se queixe de sua falta de bom senso”.


As pessoas afirmam que precisam de mais dinheiro, de casas melhores, de empregos melhores, de mais prazeres na vida, de mais horas de lazer, de viajar mais. Mas nesta lista que pode se tornar infinita sempre irá faltar o item “bom senso”.

O que podemos fazer na comunicação de massa para levar pessoas a mudarem seus comportamentos ? A levá-los a comprar?

Quais as super-mágicas hipnóticas que devemos usar na comunicação dirigida para termos a certeza de que estão fazendo ou deixando de fazer alguma coisa em função do que lhes informamos diretamente, via e-mails, sms, cartas, o que seja?


O cara que usava fotos de consumidoras para se inspirar...


Sempre me lembro da história de um publicitário americano que em alguma década do século passado costumava povoar seu escritório com fotos ampliadas de consumidoras montadas em displays.

Todas as fotos eram de consumidoras reais dos produtos para os quais dedicava a sua criação.

Acho esta história marcante pois nela – com a tecnologia disponível na época – ele sabia, bastando olhar em volta, a quem teria de cativar com a sua comunicação. E ao criar qualquer idéia para elas podia sentir se aquele papo seria aceito ou rejeitado.

Seus conceitos tinham de ser entendidos – comprados - por gente com aquela cara, aquelas roupas, aquela maneira de ser.

Não adiantava concentrar a sua inteligência criativa imaginando que iria falar para modelos lindas, para mães cheias de charme, para as pessoas que sabiam combinar roupas com bom gosto. E que iriam aparecer nos anúncios e nos comerciais.

Ele também sabia que jamais devia falar a elas de forma desrespeitosa . Nada de falar de cima para baixo, nem muito menos colocar-se como um adulador que valorizasse a falta de preparo social de suas possíveis clientes.

Ele precisava falar para gente com aquele jeito para que aquelas pessoas se sentissem tão charmosas como as modelos, ao comprar o que ele queria vender. Mais ainda: para que nelas fossem despertadas as emoções que as aproximassem, pelo consumo, a todas as boas coisas do mundo. É por aí que se justifica usar o sabonete “de 9 entre 10 estrelas do cinema”.


Tornavam-se gênios os criativos que demonstraram a sua capacidade de adequar suas mensagens a estas sutilezas das realidades humanas, mesmo que naquela época usar este tipo de argumento não estivesse ainda na moda.

No Brasil, ainda nos anos 20, o Bastos Tigre, foi reconhecido como o algo próximo de um gênio. Não pelos reclames que criava, mas por ser reconhecido como um sujeito culto e cheio de idéias.

Nesta época não havia a indústria da comunicação. A comunicação de marketing ainda não existia. Existiam apenas os reclames. Bastos Tigre criou um reclame para bondes do Rhum Creosotado, "Veja ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que o senhor tem a seu lado...” em que ele dizia que a outra pessoa quase morreu de bronquite, “salvou-o o Rhum Creosotado”.

Rhum Creosotado era rum misturado com creolina. Cujo gosto era exatamente o de rum misturado com o desinfetante quase único na época feito como um subproduto da transformação do carvão mineral em gás de cozinha...

Parece coisa muito antiga? Mas, no caso do Rhum Creosotado, o lance de genialidade foi associar as qualidades curativas do remédio com a boa aparência dos demais passageiros no bonde.

O anúncio apelava para um testemunhal coletivo e ao vivo. O passageiro lia o cartaz e olhava para os outros passageiros e passageiras.

Até os passageiros adoentados podiam ser vistos como aqueles que estavam precisando tomar o Rhum Creosotado... Resultado: o Rhum Creosotado tornou-se num sucesso como produto e o anúncio no bonde tornou-se num clássico muito mais por seus aspectos folclóricos do que por estas observações feitas aqui.

Ah!



Lembrei de um momento do passado brasileiro bem mais recente que continua presente até hoje, apesar de tantas mudanças, no país e nas pessoas:

O creme dental Kolynos era líder de vendas, mas devido a procedimentos empresariais (CADE) em relação a marcas (o que não vou abordar aqui), em 1990 subitamente a marca Kolynos e sua cor amarela tiveram de ser abatidas a tiros. Retiradas do mercado, assim como tudo que a elas se referisse.


A pasta usada pela maioria dos consumidores de creme dental desde 1917 tinha de sair do mercado. O creme que viesse a sucedê-lo não poderia apropriar-se de sua cor, nem usar nomes semelhantes, não obter vantagem alguma relacionada com a marca que há 80 estava nas bocas dos consumidores brasileiros...

A pasta Kolynos passou a se chamar Sorriso. Mas o CADE não prestou atenção ou vetou um Ah! imenso que representava o prazer de usar Kolynos presente em todos os seus anúncios.

Aquele Ah! era quase uma expressão orgástica - quando se acabava de escovar os dentes com Kolynos...

O Ah! não foi vetado ou percebido pelo CADE como algo assim tão associado à Kolynos.Afinal era apenas uma interjeição presente nos anúncios...

E o Ah! continuou sendo usado pela Sorriso décadas depois de sua criação para a Kolynos e muitas décadas depois do fim da pasta. E continua até hoje em 2011 quando este texto é escrito.

Mais incrível ainda: por anos seguidos depois da retirada da Kolynos do mercado pesquisas com consumidores sobre as marcas de pasta de dente de sua preferência ainda apontavam a Kolynos como a número 1. Na cabeça de seus consumidores que há anos não podiam comprar a Kolynos nas farmácias, a Kolynos era declarada a sua pasta favorita.

É uma hipnose ou não é?

O autor do Ah! até onde eu saiba foi o José Rolim Valença, ex-presidente da AAB, a agência dedicada às relações públicas do grupo Ogilvy. O Ah! foi criado antes desta época e nunca o Rolim foi festejado como o responsável (ou pelo menos como um dos responsáveis) deste grande momento da criação publicitária nacional.

Tremenda falha dos estudiosos... Não há referências a este Ah! no Google, logo ele não tem referências históricas.

Não é incrível que este Ah! uma interjeição apenas como legenda ampliada da cena bem estar mostrada no anúncio tenha tido uma vida tão longa?

E como este Ah! (pense no publicitário americano com as fotos dos consumidores em seu escritório) foi capaz de manter aquela pasta de dentes como a mais vendida no Brasil, para todos os públicos?

É o anúncio existindo como algo mais importante do que o próprio produto anunciado!!!

Não tenho dúvidas que o meu passatempo de analisar as caras e os jeitos das pessoas nas ruas nasceu da “dica” do passado. Gente sempre é diferente. E cada pessoa, bem analisada, sempre nos ensinará alguma coisa importante. Mas, de todas a pessoas que vejo , se ainda existisse a Kolynos, haveria pelo menos 50% que a usariam como creme dental... Ah!

Mas é inegável que mudanças do comportamento das pessoas que vejo nas ruas e mais ainda nas pessoas muito mais numerosas que não vejo , têm chamado muito a minha atenção. Convido você a compartilhar comigo algumas destas observações.

A primeira e muito importante:

Se separarmos as cabeças das pessoas que estão abaixo delas TODO MUNDO é IGUAL! Ou quase ...

Para evitar dúvidas, esta afirmação vale para todos. Do intelectual ao mendigo, do papa ao pecador mais doentio, da mais pacífica à mais agressiva das pessoas. E tento provar este absurdo com uma parábola:



Imagine que existisse um veículo revolucionário, de sonho. Um veículo que fosse ao mesmo tempo um barco que você pudesse usar com qualquer mar. Não interessa se as ondas estão quebrando a 30 metros de altura, se estão destruindo as praias, se os ventos são furacões. Ou se o mar esteja calmo, azul e transparente num dia de verão em Angra...


Com este veículo você seria capaz de sair, de navegar como quisesse por cima e por baixo d’água. E ainda ao chegar ao litoral usá-lo como automóvel com uma suspensão perfeita que possibilitasse andar por qualquer terreno.

Se quisesse - já que estamos no mundo do faz-de-conta - este veículo, seria capaz de voar, como aquelas máquinas do “Avatar”...

Agora faça de contas que você tivesse um veículo destes. Só que em vez de usá-lo com todas as suas qualidades limitasse o seu uso a apenas dar voltas em torno do quarteirão de sua casa...

Na minha visão, usando este veículo como referência você e eu (todo mundo) já tem um veículo como este e usa apenas um milésimo de suas possibilidades.


Há no mundo 7 bilhões de veículos destes. Quase todos sendo usados apenas para dar voltas ao quarteirão. E na maioria das vezes nem para isto.


Estes veículos mágicos estão estacionados ou atolados nas nossas cabeças que por um estranho dom, assegurado apenas aos humanos, são os únicos seres no universo que têm capacidade infinita de pensar. E sempre tiveram...


Mesmo os mais burros, os mais limitados, os mais malévolos, os mais bobos TODOS têm um superveículo destes dentro de seus crânios. Se todos cismassem de usá-los ao mesmo tempo teríamos o maior engarrafamento da criação!Um big bang comandado.


Por que será que deixamos nosso veículo na garagem?



Já tive experiências fascinantes ao constatar capacidades intelectuais por parte de pessoas cuja apresentação, aparência, jeito, teriam me levado a acreditar a priori que dali não sairia nada que prestasse.

Então todo mundo é bom? Todo mundo é maravilhoso? Claro que não. O que a minha “pesquisa” revela com absoluta certeza é que todo mundo é capaz de ser muito mais e melhor do que aparenta e não só diante dos outros, como diante deles mesmos.


Tive poucas oportunidades de manter conversas mais profundas ou filosóficas com um amigo que já se foi há muitos anos: meu pai.

Não o culpo, nem me culpo por esta falha. Era assim que as coisas eram. Mas, dele consistentemente recebi sempre um desincentivo de me dedicar à carreira militar.

E meu pai foi um bom oficial do exército. Eu nasci durante a segunda guerra mundial, aprendi a ler no ano da vitória dos Aliados sobre as forças do eixo (Alemanha, Itália e Japão). Torci por esta vitória, desde que aprendi a falar.

Conhecia todos os aviões, os nossos e os deles, os tanques, os uniformes, o armamento.

Quando a guerra terminou com a rendição incondicional do Japão eu “marchei entusiasticamente o dia inteiro em volta da mesa da sala de minha casa ouvindo as notícias do rádio, misturadas com marchas militares e discursos saudando os novos tempos.

Foi a minha primeira sensação inebriante de vitória em que não tinha nem idade nem conhecimentos para perceber as perdas, apenas a certeza da minha vitória.

Esta vitória ocorreu quando morávamos em Olinda e era de lá que eu saia todas as manhãs para ir para o Colégio em Recife de carona no jipão do exército que levava papai para o comando do estado maior da região – uma área de guerra que até assegurou a ele uma medalha de Guerra. Não podia haver sonho maior para um menino de 5 anos andar num jipão com um pai fardado, oficial do Exército, rumo ao Jardim de Infância.

Mas, com todos estes incentivos para me tornar também um militar, papai me dizia que diante do que acontecia nas demais áreas haveria muito mais a realizar na minha vida adulta se explorasse o que havia além da vida de um soldado profissional.

Havia muito a aprender com derrotas, guerras e vitórias, mas ele me garantia que no mundo desenhado com o fim da guerra haveria muito mais realizar e prazer numa vida dedicadas a outras tarefas...

Guardei destas conversas - que se prolongaram muito depois do fim da guerra - algumas pérolas de pensamento estratégico que me ajudaram a pensar na vida sempre. E além da vida na caserna.


Quem dá a missão dá os meios.


É em 5 palavras o maior desafio para quem comande qualquer coisa, qualquer grupo de pessoas. É por isto mesmo a maior fonte de engodos para quem apenas finge que comanda.

Pode parecer que seguir este conceito tende a criar chefes “paternalistas”, ao levá-los a assumir obrigações exageradas para conseguir a mobilização de seus comandados.

Fica muito mais fácil justificar “derrotas” quando e se o chefe não disponibilizou os meios, e por isto os comandados não obtiveram o sucesso.

As culpas neste caso sempre recairiam sobre o chefe.

Quer dizer que a culpa da derrota é sempre de quem chefia?

Hoje,tantos anos após este conselho paterno posso garantir sem muita conversa mole que é assim mesmo.

E deve ser assim.

Não há esta história de na vitória o chefe merecer todos os louros e nas derrotas o grupo ter perdido diante dos concorrentes ou dos inimigos.

O chefe chefia e só é respeitado pelos comandados exatamente pela confiança que os comandados tenham nele.

Chefe para merecer a chefia tem de ser admirado, respeitado, reconhecido.

Não pode ser chefe para ser visto e aceito como um amiguinho poderoso.

A hierarquia não nasce dos regulamentos. Ela deve ser natural e alimentada todos os dias, em todos os gestos, inclusive nas relações de amizade. E dela nascem os regulamentos e não ao contrário.

Chefes irresponsáveis têm aumentado de número nas mesmas proporções que as responsabilidades se tornam maiores neste momento do mundo.

Instala-se uma perigosa anestesia decorrente da falta de avaliação de comandantes por seus comandados.

Fica mais fácil constatar isto quando os chefes no caso são os administradores de um país – qualquer país - e seus eleitores. E vale ainda mais para os pequenos chefes de pequenos grupos de garis a traficantes semi analfabetos, ou de professores a alunos em todas as séries.

E isto tem relação com mais outro conhecimento militar que fui buscar naquelas conversas antigas:

Como enfrentar o desafio de ser nomeado comandante de um grupo em que já haja oficiais superiores, oficiais menos graduados, sargentos, cabos e soldados “formados” por outros chefes e que diante de sua chegada como novo chefe deverão se constituir daí em diante na sua tropa?


Resposta: É atribuindo as missões e provendo os meios para cumpri-las . Reconhecendo os melhores e identificando os piores. É usando estas informações para os próximos confrontos.

É preciso ser honesto com a “tropa” e fazer que ela acredite na sua honestidade e na sua dedicação. A dedicação que você receberá de volta será equivalente, ou maior.

Ao ler o livro do Ken Follet, “A queda dos gigantes”, ainda no primeiro volume de três, você poderá se constranger ao constatar como a falência dos comandantes de tropas durante a primeira guerra mundial resultou na morte de milhões de comandados.

Fatos militares têm a virtude de não serem produto de discussões teóricas, entre amigos ou inimigos, diante de copos de bebida, ou em auditórios acadêmicos em que a pena pelas decisões erradas nunca (ou quase nunca) será a morte. Apenas um pouco de desmoralização, rapidamente deixada de lado.

A grande “virtude” desta primeira Guerra foi comprovar estas novas verdades às custas da vida de milhões de pessoas.

Nunca na História tanta gente foi sacrificada para provar alguma coisa. Foram verdades extraídas a sangue, tornadas ainda mais duras pelo fato único de que praticamente todas estas mortes e todo este sofrimento não tiveram uma causa justa, moralmente defensável.


E estes fatos recentes chegam a nós hoje em fotos em preto e branco e narrativas cercadas de emoções – como Faulkner nos revela no livro “Uma Fábula” quando os dois lados decidiram não lutar, não se matarem num certo dia... Não deu certo...

Mesmo me considerando bem informado, tive poucas oportunidades para me dedicar a entender as razões daquela guerra. Havia sempre tanta coisa acontecendo que não sobrava tempo para uma coisa tão passada como a primeira Guerra Mundial...

Os motivos das vitórias e das derrotas. O que a guerra havia ensinado ao mundo. E o que o mundo havia aprendido com ela, sempre foi algo meio enevoado.

Ficou apenas a questão das reparações de guerra a serem pagas pela Alemanha... Que foi o combustível, politicamente aceito pelo povo alemão para “justificar” a continuação da guerra, sob a nova administração dos nazistas.

É fácil escrever sobre esta desatenção sobre a Guerra agora, e afirmar que desta desatenção relacionada às reparações nasceu a Segunda Guerra Mundial.Afinal de contas tanto faz. Isto é passado.

Só que fatos tão importantes ou tão relevantes quanto este estão acontecendo todos os dias debaixo de nossos narizes e a eles não damos a menor atenção.

A maioria deles acaba esquecida ou desprezada, mas há muito outros que levam a pensar um pouco mais.

Coisas como o que realmente justificou o folclórico apoio dos intelectuais ao governo ditatorial de Fidel Castro em Cuba: nunca houve tal boa vontade e tanta torcida mundial por um grupo de pessoas decidido a terminar com um governo numa ilha que até então era dedicada as sacanagens mais diversificadas.

Sacanagens sempre vistas pelo resto do mundo como sacanagens contra o povo cubano. E não como sacanagens ocorridas em Cuba protagonizadas também e exatamente pelo povo cubano.


Nesta mesma linha, você já se imaginou pensando como os alemães - os bons alemães (artistas, filósofos, cientistas, professores...) – dando democraticamente tanta legitimidade aos inacreditáveis nazistas do Hitler antes da Segunda Guerra?

E até bem depois dela?

O que permitiu que um grupo de jovens sauditas se instalasse nos Estados Unidos aprendessem a pilotar aviões comerciais e decidissem usar aviões comerciais seqüestrados no mesmo dia de empresas norte-americanas para lançá-los contra edifícios sem que nenhuma de suas articulações tivesse sido detectada pelos vários serviços de segurança do país mais bem guardado do mundo?

E como explicar como os soviéticos conseguiram enganar o mundo por tanto tempo exibindo em paradas militares uma força de foguetes cenográficos (não tinham nada dentro deles) , mas que se constituíam no mais poderoso e visível incentivo para o aprimoramento dos armamentos americanos?


E a África, com inacreditáveis países inviáveis com governantes tão corruptos que se fossem usados como personagens de ficção nenhum autor ousaria incluí-los em qualquer história, pois ninguém acreditaria na história?

Quem pagava e ainda paga hoje as fortunas para estes pulhas não seria tão ou mais corruptos do que os governantes bandidos ? E todos sabem os seus nomes, e os nomes de seus países notáveis...

E aqui no Brasil? A que forças ocultas se referiu o Jânio em sua desvairada renúncia à presidência? Havia alguma força, oculta ou não, desejando vê-lo fora do poder?Quê força era esta? Será que ainda está solta por aqui?

Quem mandava no governo do Jango? Como ele pode ser deposto – sendo tão popular – sem que ninguém se colocasse a seu lado para impedir que um pequeno grupo de tropas exíguas o fizesse correr para o Uruguai?

São fatos históricos recentes apanhados sem escala de valores e que permanecem envoltos em mistério.Tudo isto e muito mais acontece agora e praticamente ninguém perde tempo em pensar nas razões disto acontecer.

O primeiro livro de grande circulação explicando as ações da Primeira Guerra, sem um viés ideológico de direita ou da esquerda, foi o de Ken Follet. Que tal como as “lições” militares de meu pai a mim como menino, passam a se constituir numa das melhores lições para o homem moderno diante de sua história.

Tudo me leva a crer, que a essência dos grandes problemas da humanidade, ao longo de todos os seus anos, está no espírito de alienação coletiva diante das realidades óbvias, ignoradas pela maioria.

Decartes, no “Discurso sobre o Método”, ao fazer as observações críticas sobre os homens, escreveu o “Penso, logo existo!”.

Diante do que está ocorrendo a nossa volta, eu peço a sua atenção para a sua e a nossa necessidade de pensar mais usando aquele superveículo a que me referi nas primeiras linhas.

1. Pensemos e repensemos com toda isenção questionar nossa adesão a priori a ideologias, políticas, religiões, etnias e outras firulas. Não importa qual seja a sua origem, ou seus “inspiradores”. Ao contrário da piada sobre o anarquista que dizia “Hay gobiernos? Soy contra”, a recomendação é “Há certezas absolutas? Vou pensar e desconfio que serei contra.”

Coisas “firmemente” estabelecidas como a seriedade européia, a disciplina japonesa, o respeito à democracia dos americanos, a irresponsabilidade dos brasileiros que querem levar vantagem em tudo, a péssima origem dos brasileiros nos portugueses(+ índios + negros) e o que perdemos não sendo colonizados pelos holandeses...

Tudo isto precisa ser não só repensado como estudado à sério para que não façamos papel de bobos alegres.

Uma explicação confortável para esta ignorância tão abrangente pode ser localizada na busca bem sucedida da simplificação da vida. Uma série de vantagens a que todos nos habituamos e que mudaram a forma de viver das últimas gerações. E só das últimas gerações.

Os nossos bisavós tinham uma vida que consideraríamos uma dura sentença: Além de morrerem bem mais cedo decaídos fisicamente pela inexistência de medicamentos, como antibióticos, eles precisavam ocupar-se todos os dias à compra de alimentos cercados de cuidados impensáveis hoje.

Nada podia ser adquirido sem prever o tempo curtíssimo de seu apodrecimento.

No século 19, por exemplo, não havia geladeiras, para preservar a carne, e tudo o mais que se conserva refrigerado hoje. As compras de alimentos eram críticas para assegurar a vida e saúde muito mais do que hoje. Pois qualquer intoxicação podia levar à morte.

A quem cabia determinar se o alimento era sadio era apenas quem o comprava. Não havia o estado determinando as leis sobre o consumo, nem embalagens com informações sobre o que havia em cada alimento.

A compra – qualquer compra - era sempre uma negociação com os “fregueses” . As famílias mais abonadas sempre, ou quase sempre, obtinham mais sucesso.

Isto, embora muito trabalhoso obrigava as pessoas pensarem muito mais.

Outra coisa rara e difícil para nossos avós: obterem informação, sobre qualquer tema.

Uma simples pesquisa requeria consultas a bibliotecas, quando havia bibliotecas.

O que era certo ou errado era muito mais uma atribuição dos padres, ou dos demais religiosos. Desde sempre as sociedades humanas se viram diante das falibilidades dos regulamentos locais. Quando mudavam os líderes podia haver mudanças importantes em relação ao que seria certo e aceito e o que seria errado e passível de punições.

E a questão da punição também era e continuará a ser muito complexa para qualquer grupo de pessoas. O linchamento até a morte por apedrejamento está previsto nos livros sagrados dos mesmos cristãos que há pouco tempo se insurgiram no mundo atual diante da mesma punição determinada pelo Iraque a uma cidadã por seus juízes seguindo a mesma lei – exposta na Bíblia.

E este é apenas um exemplo extremo para colocar esta questão do crime e castigo em foco. Quer mais? Na Inglaterra até o início do século XIX a maioria das penas implicava em sacrifícios físicos aos culpados.

A questão de colocar alguém numa cadeia tinha como implicação imediata a necessidade de alimentar o preso pelo número de dias ou anos que ele ali ficasse.

Não havia tanta comida assim disponível nem na Inglaterra, nem em lugar algum do mundo. Num exercício intelectual bem simples se alguém era posto na cadeia e tinha de ser alimentado lá dentro havia uma condenação dupla: para o criminoso - privado de sua liberdade – e para todo o povo que estaria pagando com os seus impostos a comida dada a ele.

E desde sempre houve no mundo gente que queria romper com as leis para obter vantagens. O roubo de uma bolsa numa feira era o tipo de crime fácil de ser praticado, garantido pelo lucro rápido e imediato. Bastava entender o comportamento das vítimas, e usar a vantagem da fuga facilitada em meio à multidão reunida nas praças.

As feiras seriam tão bem sucedidas quanto mais seguras fossem para quem as freqüentava. Daí a presença de guardas atentos para identificar possíveis ladrões.

Tudo muito lógico e facilmente imaginável, pois todo mundo já viu cenas de feiras antigas em dezenas de filmes de época.

O que ninguém viu nestes filmes era o processo legal relacionado aos ladrões apanhados em flagrante.

Todos os assaltados e todos os que escapavam dos ladrões imediatamente dariam pleno apoio a que os ladrões fossem levados a um pelourinho e punidos com chibatadas bem aplicadas por carrascos implacáveis, não é?

Se mesmo com uma punição como esta ainda houvessem roubos, seria natural ir mais longe, e além das chibatadas seria uma boa punição cortar o nariz do ladrão que ficaria assim marcado com um sinal para que não voltasse a roubar pessoas. Ao vê-lo sem o nariz, ou marcado na face com um ferro em brasa, a vida do bandido se tornava muito mais dura.

Mas, como seria de se prever, mesmo assim os roubos prosseguiam. E para simplificar na Inglaterra foi determinado que seria bem mais prático enforcar em praça pública os batedores de carteiras e ladrões de bolsas. TODOS QUE FOSSEM PEGOS.

Isto tudo dentro da lógica do “já que pequenos castigos físicos não adiantam não nos resta alternativa a não ser tirar os bandidos definitivamente da terra”.

Não há dúvida que esta escalada das punições ao roubo de carteiras foi plenamente – democraticamente – apoiado pela população. Que não agüentava mais tantos roubos nas feiras.

Só que as execuções na forca dos ladrões eram feitas em praça pública a que acorriam todos os cidadãos entusiasmados com a possibilidade de verem os bandidos pendurados pelo pescoço até morrerem.

Mas, a estas execuções não acorriam somente os bons cidadãos. Para lá também iam os ladrões vivos que em meio à multidão tratavam de roubar tantas bolsas quanto pudessem enquanto os seus colegas estrebuchavam na forca.

Era preciso achar outra solução e a solução achada foi nas prisões onde os criminosos deveriam aprender alguma profissão que os pudesse inserir na nova sociedade industrial e tirá-los nas ruas.

A decisão de investir nestas prisões foi aceita pois havia necessidade de nova mão de obra para as novas fábricas.

Mas, pense bem no que ocorre nas ruas do Brasil, e nas prisões do Brasil e nos tribunais do Brasil hoje: você acha que os investimentos dos impostos em cadeias têm ajudado a reduzir os crimes? Tem havido redução no número de novos criminosos?

Os crimes de todos os gêneros têm diminuído ao longo dos anos?

Um ladrão depois de cumprir qualquer pena nas prisões tem quê percentual de “cura” de seus desígnios criminosos?

O índice não passa de 10%. 10% que custam 100% das verbas dedicadas a todo o sistema prisional que se tivesse sido aplicada em investimentos em educação com toda a certeza tirariam do crime 90 % dos criminosos condenados.

Escrever sobre isto é como andar descalço sobre o fio de uma navalha.

O risco maior está em atribuir todos os malefícios humanos à falta de uma boa educação. E como a tarefa de educar os cidadãos cabe constitucionalmente ao estado se pode deduzir que cabe a todo o estado – a todos os cidadãos que o constituem – as culpas pela existência dos criminosos...

E como decorrência deste fato não deveriam existir criminosos que tenham recebido boa educação... Uma tremenda bobagem, pois é da cabeça destes que saem os crimes mais sofisticados do que bater carteiras uma a uma. Das cabeças destes saem os planos e a execução de como bater milhões de carteiras de uma só vez.

Portanto pelo recurso do raciocínio pelo absurdo se torna claro que é preciso pensar muito sobre o crime e o castigo no nosso tempo.


Uma contravenção que deixou de ter implicações negativas para os contraventores é a referente às vestimentas: No início do século XX as vestimentas femininas tinham a aparência semelhante às usadas nos três últimos séculos.

Em meados do século, nos anos 20, as vestimentas femininas passaram a ser radicalmente diferentes, modernas, com o corpo sendo exibido sob os tecidos diáfanos.

Se – como num filme de Woody Allen as moças de 1920 aparecessem em 1900 com os seus vestidos seriam presas por atentado ao pudor.

No início do século XXI a vestimenta feminina teve mudanças intensas, mas a moça de hoje poderia ser reconhecida como alguém socialmente aceita e festejada.

Claro que ela poderia ser detida se aparecesse assim nos anos 50 do século anterior.

O que mudou no mundo entre estes momentos tão rápidos? Eu, você,meus pais, seus pais ,meus avós e seus avós todos vivemos os momentos que proporcionaram estas mudanças no mundo, as acompanhamos, as seguimos. Dedicamos muito de nosso tempo para comentarmos as mudanças da moda, pois nada era e é mais visível.

Mas, se pensarmos bem , as mudanças da moda são apenas as conseqüências visíveis de mudanças muito mais importantes e muito mais profundas na maneira de pensar e de atuar de todas as pessoas.

A mudança radical no modo de se vestir decorreu de um processo produzido pela convergência de mudanças muito importantes em várias áreas:

1. Na política.
2. Na ideologia
3. Na educação
4. Nos costumes sexuais
5. Na religião
6. No entendimento das religiões
7. Nos meios de transporte
8. Na comunicação pessoal
9. Na ética e na estética
10. No trabalho e na energia usada e consumida no trabalho.
11. Nas convicções pessoais mais profundas de cada pessoa.

Como explicar que tudo isto tenha acontecido apenas durante os 100 últimos anos quando nos 3 ou 4 mil anos anteriores as mudanças foram feitas tão devagar?

Como adaptar as capacidades dos seres humanos a este incessante e cada vez mais acelerado processo de mudanças tão grandes?

AGUARDE OS PRÓXIMOS CAPÍTULOS...

Um comentário:

Fábio Adiron disse...

Bela aula professor!