terça-feira, 27 de abril de 2010

Será que você iria escapar do experimento de Milgram?



Quando o homem intencionalmente não considera os valores humanos as conseqüências podem ser assustadoras como foi cientificamente comprovado num teste realizado diante das câmaras de televisão na França há poucos dias – reproduzindo uma experiência feita nos anos 60 nos Estados Unidos.

O teste diante das câmaras, para choque dos que dele tomaram conhecimento, revelou como estudantes universitários bem preparados não hesitaram (mais de 80% deles) em aplicar o que pensavam ser choques elétricos de até 400 volts (causando “desmaios” nos seus “pacientes”) sempre que estes “pacientes”errassem as respostas num questionário realizado sob os auspícios e com a aprovação de professores universitários.

Na TV o experimento foi anunciado como Jogo da Morte.

Cada “erro” nas respostas dos examinados deveria ser castigado com choques elétricos de intensidade crescente por eletrodos presos em seus braços. A “intensidade” dos choques era progressiva e nos controles – visíveis pelos “pacientes” em teste - podia chegar até 400 volts.

Quem estava aplicando os testes aos “pacientes” eram os que realmente estavam sendo submetidos a um teste para definir até onde ia a disposição de seres humanos normais de torturar outros seres humanos, desde que tivessem sido autorizados a isso por quem lhes merecesse confiança.

Franceses em 2010 repetiram diante das câmaras de televisão uma experiência realizada nos EUA pela primeira vez por Stanley Milgram, da Universidade de Yale, em 1961. Os pesquisados em Yale eram estudantes universitários norte-americanos.

Tanto no ano de 2010 quanto nos anos 60 do século 20 os “torturadores” foram formalmente autorizados a aumentar a intensidade dos choques por seus superiores.

Mesmo quando os alunos “torturados” de mentirinha demonstrassem muita dor e sofrimento intenso e pedissem para serem poupados.

Nas duas ocasiões (e em vários outros momentos ao longo destas décadas entre a primeira experiência e a mais recente na França, pois o teste foi aplicado em vários países) mais de 60% dos dois públicos levou a tortura “autorizada” até ao ponto em que alguns de seus pacientes simularam desmaios.

Quando li sobre este teste por volta dos anos 80 referindo-se aos anos 60 desconfiei que sua maior intenção era entender como pessoas com boa formação e boa educação poderiam cometer as barbaridades dos alemães em prisioneiros nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Havia uma busca de razões provadas cientificamente para eximir os alemães - todos os alemães - da pecha de malévolos por crimes cometidos apenas por alguns deles.

Havia ainda um sentimento geral em 1945 (reforçado pela vitória contra as forças do Eixo) de que apesar da guerra ter sido iniciada por nazistas os alemães, os outros alemães - mesmo os que não pertenciam ao partido - compartilhavam os comportamentos impiedosos em relação aos inimigos do governo.

Graças à Wikipedia ao checar os dados para este texto descobri novos detalhes que podem ser vistos de imediato se você digitar “Milgram Experiment” no Google.

Você vai entender como os comportamentos humanos doentios e racionalmente reprováveis ocorrem com os mais diversos públicos exigindo de nós uma atenção especial diante de todas as ordens superiores que venhamos a receber.

O Milgram Experiment começou em julho de 1961, três meses após o começo do julgamento do criminoso de guerra Adolf Eichmann em Jerusalém. Seu criador foi o psicólogo Stanley Milgram da Universidade de Yale e por ela autorizado a executá-lo.

O seu objetivo oficial era “medir a disposição dos participantes obedecerem a uma autoridade que os ordenasse a realizar atos conflitantes com a sua consciência pessoal”.

Milgram publicou as conclusões de sua experiência em 1963 em um artigo no Journal of Abnormal and Social Psychology e em 1974 explorou o tema com mais detalhes em seu livro, Obedience to Authority: An Experimental View, publicado pela Harpercollins (ISBN 0-06-131983-X).

Ora, o teste levou os universitários a “torturar” inocentes até a fase do desmaio.

Nos anos 80 li numa publicação de marketing sobre o teste realizado 20 anos antes. Ao saber agora da experiência francesa até já havia esquecido do criador do teste original. E fui atrás deles no Google.É aprendi algumas coisas novas.

Ao longo de meus anos como professor e palestrante quando percebo sinais de intolerância dos alunos ou da audiência com falhas alheias procuro sempre encaixar a história da pesquisa feita nos EUA nos anos 60 para chamar a atenção sobre a adoção de conceitos muito fechados em obediência a leis ou determinações de autoridades reconhecidas.

Para tornar a história adequada ao grupo interessado em marketing pedia que cada um predissesse quantos por cento dos aplicadores dos “choques” chegaram aos 400 volts demolidores nos “pacientes” que erravam as respostas.

As respostas invariavelmente concentravam-se em torno de 30%, e na minha visão só chegavam a este percentual porque o grupo percebia que eu estava lhes preparando uma pegadinha.

Na verdade eu não estava fazendo nada de novo.

A Bíblia relata a passagem em que Cristo diante de uma mulher adúltera em vias de ser morta a pedradas pela turba furiosa (pois esta era a penalidade legal, autorizada pelos governantes e muito curtida pela população) salvou a vida da moça simplesmente pedindo que “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”(Jo 8:7).”

Por isto mesmo, voltando ao momento presente, se mudarmos a nacionalidade dos “torturadores autorizados a torturar” não teremos surpresas ao constatarmos como capazes de cometer as mesmas barbaridades alemães, franceses, americanos, asiáticos, povos primitivos de todas as partes da Terra e naturalmente latino americanos como argentinos, chilenos e brasileiros...

Os alemães levados a julgamento nos Tribunais de Nuremberg, diziam que “apenas cumpriam ordens superiores”. E que os responsáveis por seus atos, se havia algum responsável, eram os seus superiores.

Os superiores presos e também levados a julgamento atribuíram suas culpas a seus próprios superiores, numa cadeia que terminava (ou começava) na alta cúpula nazista.

Esta “explicação” atribuindo a pessoas mais qualificadas do que elas as ordens para praticar atos contrários a seus próprios sentimentos humanos, foi em linhas gerais adotada pelos economistas de Wall Street em 2008.

Todos seguiam o que faziam outros respeitáveis economistas. Aplicaram recursos imensos no que qualquer um deles se fosse inquirido numa prova, diria ser uma temeridade injustificável.

Há uma frase que ajuda a entender esta disposição criminosa, desde que seja ela endossada por pessoas respeitáveis.

Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Enquanto a bolha não explodiu, comprovando que os recursos existentes no papel não correspondiam às riquezas por eles representada, foram auferidos grandes ganhos pessoais por todos. E entre estes todos estavam os mais respeitáveis analistas econômicos das mais importantes instituições financeiras do mundo. América, Europa e Ásia.

No caso da economia, apesar de todo o mistério relacionado à interpretação dos números num balanço, não havia nada escondido. Qualquer pessoa que se detivesse analisando o que estava disponível a todos diria que aquilo não fazia sentido.

Portanto, cuidado antes de atirar a primeira pedra.

Será que você se recusaria a dar os choques num teste feito hoje?

3 comentários:

Braulio França disse...

Pio, o mecanismo psicológico que leva um ser humano em ter prazer na tortura é o mesmo que leva um médico abrir uma pessoa e operá-la para salvá-la ou ser um estripador como o Jack. A única diferença é a canalização para o bem ou para o mal...quanto a mim não sei se passaria no teste.

Pio Borges disse...

Braulio, veja como os costumes mudam depressa. Na minha infância nos anos 50 do século passado gostar ou proteger bichos era uma exceção. Tinha cara que abria passarinhos para ver como ele era por dentro.
Ninguém num grupo achava que aquilo era uma maldade injustificável. Havia o entendimento que bicho era bicho. Ponto.
Portanto havia o aval social para a maldade impensável hoje.
Não duvido que alguns dos caras que abriam passarinhos tenham estudado medicina depois e terem sido bons cirurgiões...

LUIZ PIO BORGES Cunha disse...

Estamos em outubro de 2015 e ao ler este post sou obrigado a pensar nas pedaladas da Dilma.

Ela sabia que estava cometendo um crime , o Lula há poucos dias "justritificou" as pedaladas alegando que o dinheiro era para o bolsa família e para o minha casa, minha vida.

Mentira. Não era, como foi evidenciado pela imprensa ao examinar as contas do governno.

No entanto os membros do governo mentiram na ocasião e continuam a mentir.

Os choques aumentaram de intensidade. E estamos todos estupefatos.

NADA MUDOU