Em qualquer um grupo de crianças havia sempre os mirolhas e os que não podiam ser mirolhas.
Os deuses não concederam a eles esta suprema graça, baseados em critérios conhecidos apenas por eles.
Jogava-se bola de gude com três búlicas, três covas feitas com o calço do sapato, num chão de terra dura tão plano quanto possível.
Podiam jogar três ou mais jogadores , mas três era o número
ideal. Para jogar , quando se decidia jogar, o mais rápido gritava “Marraio” e
este grito garantia a ele om privilégio de ser o último a jogar.
Uma grande vantagem, pois o objetivo de todos era o de botar
sua bola nas búlicas e impedir que os outros fizessem isto afastando as suas
bolas para tão longe quanto possível.
O último a jogar, se fosse mirolha, podia botar a sua bola
mais perto da búlica e acertar as bolas dos outros jogadores para que sumissem
de vista.
O ganhador ficava com a bola dos perdedores, ganhava poder e
notoriedade.
Quem ganhava mais eram os mirolhas, uma virtude que
precisava ser exercida por um tipo especial de pessoa que tinham de se
enquadrar nos 7 parâmetros abaixo:
1.
Tinha de ser rápido no raciocínio para gritar o
marraio antes dos outros.
2.
Só gritar, porém, não adianta muito se você não
soubesse como operar a sua bola e fazer a suas jogadas sem um foco contínuo em ganhar o jogo.
3.
Ao jogar a sua bola não podia dar sinais de hesitação,
pois esta atitude confiante sempre amedrontava os adversários inseguros e
temerosos de perder suas bolas em poucas jogadas.
4.
Todo o gestual do jogador, obedecia uma
coreografia não determinada, cuja a repetição segura dava ainda mais confiança
aos melhores jogadores.
5.
O jogador mirolha tinha de ser impiedoso . Ao
lançar a sua bola sempre que pudesse devia despedaçar com o impacto a bola dos adversários.
6.
As bolas despedaçadas eram substituídas por
novas bolas inteiras que cada um tinha em um saco de pano.
7.
Se perdesse o jogo seria esta a bola a ser
entregue ao vencedor, a bola despedaçada ia para o lixo.
O pensamento estratégico se tornava a segunda natureza dos
bons jogadores. Mas cada estrategista destes, tinha de aprimorar a sua
habilidade operacional. Cada lançamento , seguia uma coreografia. Um lançamento jamais poderia ser feito com objetivo
diferente da conquista da vitória.
O xadrez é o jogo mais antigo com mais jogadas, com milhões
de jogadas posteriores, que os bons jogadores preveem antes de mover cada peão
no tabuleiro.
Tanto na bola de gude quanto no xadrez o objetivo é a
vitória incontentável com humilhação dos perdedores, mas sem bazófias dos ganhadores
.
Quem ganha sempre será visto como um protegido dos deuses,
pois este lugar nunca pode ser ocupado por alguém que ganhe a partida por
acaso, por pura sorte.
Quem ganha não precisa se orgulhar muito da vitória, a
vitória é para ele a mera consequência de seu jogo arrasador.
Há diferenças importantes nestes dois jogos que imitam a
vida:
a bola de gude para ser jogada requer de início apenas uma bola de gude por jogador, um área de terra dura, as três búlicas e pelo menos três jogadores disputando a vitória.
a bola de gude para ser jogada requer de início apenas uma bola de gude por jogador, um área de terra dura, as três búlicas e pelo menos três jogadores disputando a vitória.
No xadrez não existe esta simplicidade: é preciso o
tabuleiro, as peças , pelo menos dois jogadores
e o mínimo de interferência dos espectadores.
Os jogadores devem ter um raciocínio matemático sofisticado e rápido como o que um desafiante num principado muçulmano que pediu, diante de sua vitória sobre o campeão local , que o príncipe apenas lhe pagasse com grãos de trigo.
Os jogadores devem ter um raciocínio matemático sofisticado e rápido como o que um desafiante num principado muçulmano que pediu, diante de sua vitória sobre o campeão local , que o príncipe apenas lhe pagasse com grãos de trigo.
Colocando nos 64 quadrados do tabuleiro sempre o dobro dos
grãos colocados no quadrado anterior.
O resultado em número de grãos é uma progressão geométrica
simples.
O número 2 é multiplicado por ele próprio uma vez no
primeiro quadrado e este resultado passa a ser
multiplicado pelo número anterior 64 vezes. Esta soma tem como fórmula
S= 2 elevado a 64ª potência – 1 .
O total é 18 446 744 073 709 551 616 – 1.
Se toda a terra recebesse uma plantação de trigo e fosse
feita uma colheita por ano este número só poderia ser alcançado em 450 séculos.
Este desafio ao príncipe foi feito por Lahur Sessa, o inventor
do jogo de xadrez e o maior marqueteiro de seu produto, com um problema que
atravessa milênios estarrecendo os menos relacionados a jogos matemáticos.
Jogadores de bolas de gude não têm esta capacidade de
raciocínio. O que querem ganhar são as bolas de gude de seus adversários, nem
pensam em grãos de trigo.
Em detrimento do jogo de xadrez em relação ao jogo da bola
de gude há a definição de um pensador norte-americano : Quanto mais alguém joga
xadrez mais capaz se torna um jogador de xadrez.
E para por aí.
E para por aí.
Com a prática da bola de gude os mirolhas dão os primeiros
passos de um futuro brilhante.
Se você tomar as 7 necessidades para se tornar um vencedor
com a bola de gude e der a elas o tratamento dispensado a Sun Tzu em sua Arte
da Guerra comprovará que quem seguir um ou outro, de Sun Tzu ao mirolha na bola
de gude terá a mesma sabedoria filosófica, só que
os jogadores de bola de gude têm a vantagem da prática exercida nos primeiros anos de vida.
os jogadores de bola de gude têm a vantagem da prática exercida nos primeiros anos de vida.
Joguei muita bola de gude, mas jamais me considerei um mirolha, que pena...
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