Criatividade é uma subversão de comportamento que
tem o dom de levar as pessoas não
criativas a se considerarem
inteligentes.
E o são, sem dúvida.
Ao perceber uma obra
da criatividade há nas pessoas não envolvidas com aquela criação a sensação de
realização, de descoberta , de privilégio por ter acesso aquilo antes das
pessoas que não viram , ou que até podem ter visto, mas não valorizaram o que
viam.
Um som, uma letra de
música, um ritmo, uma harmonia, um
quadro, uma proposta filosófica (a relação é infinita) que superem a barreira da incompreensão em sua
primeira exibição pública tem o seu valor evoluído para uma nova virtude: a de
tornar a pessoa melhor ao sentir-se como o que pode ser mais próximo da
coautoria daquela criação..
A criatividade numa
peça de artesanato produzida por artistas com poucos recursos, em locais de
poucos recursos quando é percebida e valorizada por alguém estranho àquele
ambiente produz a mágica de ser de imediato revalorizada pelos circunstantes e
tornar o admirador externo – o padrinho da avaliação positiva – numa pessoa
admirável naquela comunidade somente pelo fato de ter valorizado aquela obra
criativa.
Que se torna maior
pela admiração da pessoa não pertencente ao grupo onde vive o artesão. E tanto
mais valorizado será ele quanto mais notória seja a pessoa de fora.
A criatividade não
existe quando não encontra admiradores. Pois na admiração de outras pessoas é a
medida da criatividade.
E o seu aspecto
mais duro é que pode ser vista de imediato como exigir
dezenas e até centenas de anos para ser “descoberta” pelas pessoas.
Van Gogh - 30 de março de 1853 – 29 de julho de 1890 - não teve a sua criatividade admirada ao longo
de seus 37 anos de vida. Seu extraordinário valor começou a ser percebido nos
primeiros anos do século 20 quando também se tomou conhecimento de sua imensa
obra, mais de 1000 quadros, gravuras e esboços que se tornaram sofisticados nos
seus dois últimos de vida.
A explicação de que
os padrões estéticos do mundo evoluíram sendo Van Gogh um precursor deste novo
momento da criatividade seria justificável, mas ainda estaria longe de uma
verdade incontestável.
Outros pintores
também foram revolucionários nos anos anteriores ao século 20, Van Gogh porém
teve o privilégio de ter sido redescoberto.
As obras de Van Gogh e
seus quadros em especial passaram a ser
comprados por milhões de dólares pois independente de sua expressão artística, tornaram-se
oficialmente admirados por pessoas cujos
critérios artísticos não eram diferentes
do das pessoas que ao longo de vida dele não investiriam nas obras que
agora passaram a ser surpreendentemente valiosas.
A criatividade requer
molduras onde possa ser vista e identificada pelo maior número de pessoas, e
quanto mais pessoas mais valorosa será a Criatividade de seu autor.
A EXPERIÊNCIA DE
REVOLUÇÃO DA CRIATIVIDADE E A BOSSA NOVA
O reconhecimento de
um valor mais alto só pode existir em pessoas com muitas incertezas em sua
mente. As incertezas não podem ser apenas as incertezas artísticas.
Alguém que
abrigue num determinado critério estético – como considerar um modo de fazer
música, ou de pintar quadros, ou em projetar prédios, ou de definir
comportamentos sociais, ou estruturas legais – será incapaz de admirar o novo,
mesmo que ele caia no seu colo.
A capacidade de
questionar os seus filtros racionais, mantendo-se coerente e sadio em seu modo
de viver, é uma virtude cuja aplicação põe em risco a vida de quem se questiona
em relação a qualquer tema.
O contestador
reconhecido como uma pessoa criativa corre o sério risco pessoal de perpetuar a
sua contestação aos ambientes em que viva, sem jamais ter sido criativo, embora
ele próprio possa se achar um revolucionário incompreendido.
Talento que será
usado exatamente na medida que o seu meio permita usar para garantir a sua
sobrevivência. Dependendo do ambiente em que viva poderá contar com a leniência
de seus vizinhos para sobreviver à espera de seu momento de florescer.
Um cabo do exército
austríaco que sobreviveu à Primeira Guerra Mundial sendo pintor de paredes que deveria ser reconhecido como um artista
capaz de produzir quadros penou por alguns anos como um gênio criativo não
reconhecido por seus colegas, e explodiu para desgraça do mundo como ideólogo
de um movimento que muito além de seus quadros empolgou milhares de
admiradores.
Os admiradores eram
incapazes de urdirem toda a trama ideológica do cabo pintor, mas se
sentiam inteligentes, superiores, uma
elite privilegiada por compreender e se integrar no nazi-fascismo de Adolf
Hitler.
As frustações de
Hitler foram a inspiração para a sua autoconstrução como fuhrer do III Reich , e ele só pode vir a ser o que
foi porque foi aceito e cultuado por um dos povos mais educados do mundo
ocidental.
Um aval que por seu
peso tornou o livro Mein Kempf – Minha Luta – uma bíblia para muitos líderes
nacionais que se sentiram mais “inteligentes” ao aderirem ao pacote ideológico
do cabo do exército austríaco da Primeira Guerra Mundial.
A única formação
profissional organizada a que teve acesso o frustrado pintor de quadros
medíocres que pode extravasas a sua criatividade com os milhões de mortos e
feridos da Segunda Guerra Mundial.
Criatividade pode ser
algo muito perigoso, daí não ser de espantar que as pessoas que testemunharam o aparecimento da Bossa Nova no Brasil tivessem cuidados especiais em adotá-la
como uma legítima manifestação criativa e artística dos brasileiros.
Os brasileiros de
todas as classes e capacitações econômicas viviam – sem saber disto pois quem
está vivendo não sabe bem de que forma aquele momento vai ser julgado pela
história – os efeitos da vitória da democracia – representada pelas Nações
Unidas – contra as forças totalitárias do nazismo, fascismo e imperialismo dos alemães,
italianos e japoneses.
Tudo que tivesse
conotações com os valores mais ostensivos com os países líderes das Nações
Unidas era bom. Sem precisar comprovar seu valor de forma mais definitiva.
A educação liberal, a
democracia representativa, as expressões artísticas americanas – especialmente
as norte-americanas – tinham todas o carimbo de coisa boa.
Foi num ambiente
musical derivado de um passado muito criativo, especialmente no Rio de Janeiro
que havia sido a sede da corte imperial, a sede dos governos da república, o
centro da inteligência e da cultura brasileira que a música, os filmes a
maneira de ser dos norte-americanos foi absorvida.
Nós cariocas
adolescentes não podíamos admitir sermos vinculados a apenas valores herdados
de nosso passado glorioso. O samba com a força de seu ritmo que nos tocava no
fundo da alma era muito bom, mas deveria comportar releituras na sua
composição.
O samba tal como uma
variação em religiões que cria seitas passou a ser expresso como samba, com uma
mudança na divisão de seu ritmo.
À nova divisão
rítmica foi dado o apelido um tanto depreciativo de bossa nova, assim como a
pintura de alguns artistas franceses no início do século ganhou o nome de
impressionismo – também depreciativo, por inspiração de um quadro de Monet .
A respeitabilidade
das pessoas era construída em torno de sua coerência pessoal com o passar dos
anos. Um elogio a que todos aspiravam
era de “homem íntegro”.
Que tinha uma segunda
leitura como homem de ideias firmes em relação a todos os assuntos e quanto
mais assuntos com ideias íntegras mais respeitáveis seriam os cidadãos.
Todas as pessoas
diante das contínuas novidades do pós guerra tinham dois caminhos a seguir:
correr atrás dos novos comportamentos ( com um risco nunca antes detectado
sobre a sua integridade) ou resistir às mudanças antes mesmo de saber do que se
tratava, assegurando o respeito da família, vizinhos, colegas sem o menor
esforço físico e mental.
A criatividade da
bossa nova foi irrigada pelo desafio de vencer o repúdio dos preguiçosos
íntegros e radicalmente apoiada pela necessidade de demonstrar o nosso valor. A
bossa nova até pelo número de músicos, da escolha de seus instrumentos
apropriou-se de conceitos jazzísticos, mas fugia a esta ligação com empenho igual
aos valores das músicas tradicionais brasileiras do século 20.
O sucesso da Bossa
Nova foi muito além do mundo musical. Zeitgeist , que quer dizer espírito da
época , um termo em alemão (que deve ter influenciado as massas germânicas a elegerem e cultuarem o Hitler) invadiu todas as áreas do pensamento dos brasileiros.
Brasília=, (patrimônio
da Humanidade reconhecido pela UNESCO dezenas de anos após a sua fundação) ,
nasceu ao som da Bossa Nova.
Nem Lúcio Costa nem
Niemeyer nem qualquer arquiteto ou engenheiro que construiu a Cidade ao que eu
saiba debruçou-se sobre suas pranchetas ouvindo a bossa nova. Mas a Bossa Nova
foi o diapasão de tudo o que se fez no Brasil quando ela se integrava ao bom
gosto brasileiro.
Houve inclusive um
concerto com os criadores da Bossa Nova no Carnegie Hall de Nova York que
ocupou em nosso orgulho nacional um
nicho como da Miss Brasil Marta Rocha que teria deixado de ser eleita Miss
Universo, nos Estados Unidos, por ter duas polegadas a mais nos quadris.
O JORNAL DO BRASIL FOI
GRANDE PALCO DA BOSSA NOVA EM TODA A SUA EXTENSÃO CULTURAL.
O Jornal do Brasil
ocupava a sua primeira página – a capa – com anúncios classificados de emprego.
Era uma comunicação de uma pessoa, o anunciante, visando um leitor que deveria
encontrar ali o emprego que iria lhe garantir a vida econômica.
Na década de 50 o
Jornal do Brasil, com o seu grupo de jornalistas com ideias avançadas começou a
dividir o espaço nobre da capa com notícias e fotografias numa diagramação que
abdicou dos fios entre as colunas que era a maneira tradicional de fazer
jornais.
O JB passou a ter
assinantes em maior número e tornou-se no exemplo para os demais jornais do
Brasil. O seu suplemento dominical SDJB premiava os melhores intelectuais
publicando as suas ideias no belíssimo caderno que não ficava a dever tanto em
conteúdo como em estética ao que havia de melhor no mundo.
Havia uma elegância
na forma do JB que se tornava numa forma de ver o Brasil daqueles anos. Não
havia espaço para “aloprados” cafajestes na política. Seria algo muito
inadequado aos olhos críticos dos leitores, mas claro que os aloprados existiam
cheios de temores de serem vistos ou comparados aos privilegiados pelo
reconhecimento jornalístico sofisticado.
NA PUBLICIDADE TAMBÉM
MERGULHAMOS EM NOVAS ÁGUAS
Foi nos anos 50 que
por um incentivo de Assis Chateaubriand a propaganda brasileira deu salto além
do brilho pessoal de alguns de seus profissionais formados por sua própria
vocação.
Foi fundada em São
Paulo, nas instalações dos Diários Associados, do Chateau, a Escola que se se
tornou na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) e também o Museu que
se transformou no MASP.
O Chateau era a
essência da controvérsia: um misto de cangaceiro e visionário que dominou a
comunicação no Brasil com jornais e rádios em todas as capitais e foi também o
pioneiro das televisões botando no ar a Tupi de São Paulo antes de que as
pessoas tivessem receptores de TV em suas casas.
Para adquirir as
primeiras obras do acervo do MASP ele pedia doações aos grandes líderes
empresariais mediante ameaças sutis de matérias nas suas mídias que iriam
comprometer a sua imagem.
Os doadores , tanto
os convencidos a doar como os achacados permitiram o MASP surgir e obter muito
sucesso.
A ESPM , com o
slogan: aprenda com quem faz. Começou a libertar o pensamento das pessoas que
queriam trabalhar com propaganda dos laços de aço que tornavam, as agências
internacionais o local onde se fazia a boa publicidade. E apenas lá.
A criatividade
brasileira em ambiente descontraído, mas refúgio dos intelectuais pragmáticos ,
passou a ser vista e premiada nos grandes eventos internacionais.
Brasileiros se
tornaram presidentes de grandes agências norte-americanas e mostravam que com
engenho e arte isto seria possível para qualquer cara talentoso que quisesse
ser publicitário.
A criatividade ousada
por definição não podia ser ensinada nos cursos. Os cursos tinham e têm a
função maior de não sufocar a
criatividade dos criativos que aprimoravam os seus dons olhando para outras
coisas.
O Fusca,. Volkswagen
foi a peça mais criativa do Ferdinand Porsche que inventou um carro pequeno nos
anos 30 na Alemanha que gastava pouca gasolina e era refrigerado a ar.
O Fusca tornou-se num
dos jipes do Wermarcht alemã, sendo
usado desde os locais cobertos de neve aos desertos do norte da África.
O carro começa a ser
montado e logo fabricado no Brasil. Só que aqui o modelo alemão de engenharia impecável
teve de ser adaptado localmente para ficar bom.
No Rio Grande do Sul
a maior parte das estradas não tinha pavimentação. Era de terra e a sua superfície recebia
pedrinhas britadas para ficarem mais resistentes e não se transformarem em atoleiros
nas chuvas.
As pedrinhas gaúchas
são de basalto, um rocha escura que quando é partida se parte em dadinhos com
bordas vivas que tal como os dados de jogar voam longe quando são apertadas de
um lado só.
Os outros carros
tinham as suas caixas de rodas protegidas por para-lamas incorporados às carrocerias.
Os Fuscas tinham os seus quatro para-lamas como projeções fora da carroceria.
Um Fusca na disparada
nas retas dos pampas promovia uma chuva de basalto cortante que afetava
sobretudo a parte interna dos para-lamas. Que ficavam marcados como se tivessem
sofrido uma chuva de granizo que vinha do chão.
O Fusca para ser
usado nos pampas tinha de receber uma chapinha por dentro do para-lamas para
impedir que os dadinhos de basalto amassassem a lataria.
Coisa que os engenheiros
alemães nunca imaginaram que seria necessária em lugar algum do mundo.
Os jipes Willys do nordeste
tinham também de ser adaptados pelos mecânicos locais para ficarem bons ,
melhores do que os jipes americanos que foram testados em todos os terrenos do
mundo durante a Segunda Guerra Mundial.
Criatividade é ser
capaz de imaginar estes aprimoramentos mecânicos a partir da descontração de um
mecânico de interior. E criatividade aplicada é não impedir que estes
desrespeitos sejam feitos em relação aos
trabalhos dos engenheiros americanos e alemães.
Eu tive no interior
do estado do Rio um jipe com chassis alongado e motor de seis cilindros a
gasolina que consumia uma barbaridade por quilômetro rodado, mas tinha este
consumo reduzido em torno de 20% quando tinha o giglê do seu carburador
gigantesco substituído pela ponta de uma caneta esferográfica Bic , de que era extraída
a esfera .
O jipe perdia também
potência, mas praticamente para tudo o que se fazia com ele havia potência
suficiente.
O cara criativo que
resolveu usar a ponta da caneta Bic para botar no giglê , cujo nome se perdeu, demonstrou
o que era criatividade.
Não parecia uma revolução criativa,
mas era e foi .Marcou o momento mais criativo dos brasileiros no século 20
MAIS SOBRE ESTE TEMA DENTRO DE DEZ ANOS...VALE A PENA ESPERAR!